A dor de um silêncio
A cor do céu já
se fazia escura como uma noite de angústia. Era a primeira e a mais fria noite
de inverno. O povo de Cyrillic travava uma batalha contra o frio nas florestas
em busca de seus alimentos, mas nem todos tinham a audácia da família Grust,
eles iam caçar em família e sempre voltavam com os maiores ursos da noite.
Porém, havia uma herdeira da família que não fazia parte de suas aventuras, era
Katherina. Ruiva, de pele branca com sardas e seus olhos verdes esmeralda
faziam dela a mais bela moça do vilarejo. Seu pai fazia de tudo para mantê-la
trancada em casa para que não machucasse sua beleza, pois quando chegasse a
hora de se casar pretendia que fosse com um homem rico e de poder.
Não era bem isso
que Katherina desejava, ela queria o amor da família e participar de suas
aventuras, e naquela noite de inverno, não conseguiu se conter, colocou uns
travesseiros debaixo da coberta onde dormia e saiu escondida atrás de sua
família. As árvores, a neve, os rios de gelo, tudo era novo para ela,
deslumbrava-se no encanto de cada ser diferente.
Já tinham se
passado três horas, a família Grust voltava de sua caçada com o alimento nas
mãos. Ao chegar em casa, a mãe de Katherina foi direto procura-la e pensou que
ela realmente estivesse ali dormindo quando viu o emaranhado de cobertas e
travesseiros. Então se retirou e logo
após foram todos se deitar. Mas a jovem não estava em casa, ela havia perdido-se
em meio as novidades da floresta.
Enquanto isso um
homem de barba mal feita, ombros largos e roupas remendadas perambulava por
entre o gelo e as árvores. Era Noah, um alguém sem família que vivia isolado na
floresta. Muitos do povoado o odiavam e diziam que ele roubava suas caças e
lenhas, mas ele só queria manter-se quente enquanto a morte não vinha para buscar
lhe. E naquela noite ele havia feito uma promessa: ou a morte encontrava-o ou
ele iria encontra-la.
Katherina agora
procurava uma saída, ela sentia frio e medo. De longe viu um casebre e sem
pensar correu até ele, talvez encontrasse ajuda. Era de madeira, bem velho e
tinha peles de urso na decoração. Parecia ser quentinho, bateu a porta e
ninguém saiu, foi aí que decidiu entrar e ficar por ali mesmo até amanhecer
para voltar pra casa.
Noah ainda
estava em busca da morte, enfrentava o frio, os animais e mesmo com ferimentos
pensava que nada iria fazê-lo desistir e por um instante, lembrou-se que ainda
tinha um pouco de entorpecente que usava nos animais e poderia usar para
acalmar a dor, então voltou rapidamente para casa. Ao entrar, se deparou com
Katherina dormindo no meio de seus casacos. Ele não era muito sociável, segurou
firme em seu braço fazendo-a acordar e perguntou o que ela estava fazendo ali.
Ela soltou uma respiração profunda, mas não conseguia responde-lo deixando-o
furioso. Noah tinha que admitir que ela era linda e amável e aquilo mexia com
seu coração mas ao mesmo tempo feria seu orgulho, ele não sabia o que fazer.
Sentindo-se ameaçado amarrou Katherina nas mãos e nos pés temendo que ela
pudesse fazer algo contra ele.
Katherina com
medo não reagiu, e permaneceu em silêncio, resolveu esperar pra ver o que ele
iria fazer. Então, ao contrário do que ela imaginou, Noah sentou ao seu lado, e
em um súbito momento de tristeza, começou a chorar. Ele não sabia o que estava
acontecendo, afinal, na noite em que procurava o fim de sua vida, encontrou
algo que poderia significar um recomeço. Aquilo o deixou com a mente bagunçada,
afinal, nunca lhe acontecera algo parecido. Seria ela um inimigo ou uma amante?
Seria ela uma fera ou uma mulher apaixonante? Ele preferiu então ficar ali, em
silêncio, apenas olhando ela, pra não perder aquela imagem.
Khaterina
percebeu que não havia mal naquele homem estranho, ele precisava de alguém, e
ela mais do que ninguém sabia o que era se sentir abandonada. Podia ser um
sentimento novo, ela também não sabia dizer o que era, mas tinha o desejo de
aprender com ele, e acompanhar-lhe nas suas aventuras. Aquilo ficou vagando em
sua mente até que por um instante fechou os olhos, e acabou adormecendo, estava
cansada daquela noite fria e turbulenta.
Noah não
conseguiu deixar que ela passasse frio enquanto durmia, e nem queria
machucá-la, com muito cuidado desamarrou suas mãos e pés e a cobriu. Deitou-se
de frente pra ela, e enquanto seus sentimentos se misturavam, também adormeceu.
A noite passou
rápido como o pouso de uma águia e a neve continuava a cair. A família Grust já
estava acordada, e sentirão falta de Khate, como a chamavam. Sua mãe foi até
ela para acorda-la pro café, e então se deu por conta que ali haviam apenas
cobertas e travesseiros. Em desespero corre até o pai de Kathe, e sem pensar
duas vezes, decidiram procura-la. Seu irmão disse que suspeitava que ela estava
na floresta, pois sabia que seu maior desejo era sair de casa para conhecer
aquele enorme manancial de árvores. Pegaram suas lanças, punhais, e um casaco
dela, e saíram para busca-la.
Noah já tinha se
levantado, ele acordara com raiva daquilo tudo, de todo aqueles sentimentos,
mas tinha um desejo enorme que Katherina permanecesse ali. Sabendo que o melhor
momento para refletir era enquanto andava na floresta, então saiu para caçar.
Logo após ouvir
o barulho da porta, Katherina abriu os olhos, e lembrando-se de tudo que estava
acontecendo, tomou coragem, respirou fundo e decidiu que ficaria ali com Noah,
mas antes queria voltar para casa buscar alguns de seus pertences.
Enquanto isso, a
família Grust já estava na floresta, procurando Kathe, e Noah estava caçando.
Kathe estava voltando pra casa, quando percebeu os gritos de seus pais, e se
escondeu atrás de algumas pedras. Noah ficou frente a frente com a família
Grust, mas não sabia que era a família dela, afinal ele não sabia nem o seu
nome. Eles ficaram apavorados, e pensando que Noah pudesse ser quem raptou
Kathe tentaram atingir-lhe, mas ele vendo-os como inimigos foi mais rápido ao
defender-se e lançando suas flechas acertou o pai e o irmão de Kathe, e no momento
em que iria atirar em na mãe da moça, algo surgiu do meio da mata entrando em
sua frente com muita rapidez. Noah ficara tão assustado que lançou a flecha que
estava em suas mãos sem mesmo abrir os olhos. Foi quando ouviu um grito.
Katherina havia morrido tentando salvar sua mãe. Ela havia entrando na frente
dele pra que não atirasse. Ele ficou estarrecido, desesperado, e antes mesmo da
mãe tentar busca-la, ele tomou o corpo em suas mãos e voltou correndo para
casa.
Chorou por muito
tempo com a cabeça encostada no corpo de Kathe, e dizia que tudo que ele mais
queria era que ela ficasse ali com ele, e perguntava porque ela havia feito
aquilo. Foi quando viu sua pulseira em cima de uma mesinha que havia na
varanda, junto com uma carta que ela escrevera. A carta dizia: Meu amado Noah,
em apenas alguns momentos eu já percebi que sua vida é a que eu quero, e que
você precisa de alguém, assim como eu também preciso, então eu decidi... Vou
ficar aqui com você! Estou indo para casa buscar minhas coisas. Há essa hora
minha Família deve estar me procurando, então tome cuidado, eles são os Grust,
os caçadores de ursos. Você deve estar se perguntando por que até agora eu não
disse meu nome, pois bem, eu me chamo Katherina Grust, e eu não lhe falei antes
porque eu não posso, espero que você me entenda e aprenda a me amar assim, eu
não falo Noah, por uma doença que tive quando criança, e depois disso não
voltei mais a falar! Mas eu ainda sinto e vejo da mesma maneira que você, e
quero te amar mesmo sem poder falar isso! Espere-me, eu estou voltando!
Naquele dia Noah
sentiu a maior de todas as dores, a solidão. Ele não suportaria mais viver ali
sozinho, aquela angústia e aquela saudade corroíam sua alma. Deitou o corpo de
Kathe na varanda de sua casinha, se deitou do lado e ali chorou durante todo
dia e noite. Tirou o seu casaco para cobrir o corpo dela, e então ali se
consumou a dor do silêncio, a dor de não poder falar, a dor maior que era
perder alguém do que não ter ninguém.
Noah morreu de
frio e de amores naquela noite ao lado de Katherina. E no vilarejo de Ciryllic
fez-se silêncio durante todo o dia e noite em homenagem a ela, a moça bela que
fazia do silêncio o seu refúgio.
ps.: Essa estória foi desenvolvida com um grupo da faculdade. Tinhamos que construir uma narrativa de tema livre! E não é que a história rendeu?! Com as ideias de todo o grupo, eu escrevi esta história linda! :D Valeu galera pela inspiração!
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